
«Há lugares aonde nunca mais quero voltar, e esse é um deles: noites a fio sozinha em casa a fumar charros e a ver filmes, roída dos momentos que passámos juntos, a minha pele ainda da ressaca da tua, o teu silêncio a atravessar-me os dias como uma lança que nunca mais acabava, e eu desligada do mundo e de quase todas as suas alegrias porque me entregara a um amor irrealizável e absurdo que só servia para me alimentar a veia literária»
Margariga Rebelo Pinto, O Dia em que te esqueci*
Eu já fui feliz contigo. Ás vezes ainda o sou quando, enroscada à almofada e perdida entre lençóis traquinas, me entrego a memórias tuas. Sorrio e inspiro o cheiro que já esqueci da tua camisa cinza, essa que tantas vezes manchei de dedos e lábios, no tempo em que a tua ausência espelhava em mim tsunamis devastadores, depressões compulsivas, medo de acordar para uma terra não semeada pelas tuas mãos. Medo da tua indiferença, dos teus silêncios pois, pior do que o desamor, é a ausência da sua constatação. E tu nunca foste bom com factos.
Fui feliz apesar de todas as prisões e privações a que me condenaste. A minha única prisão era a tua perda. O resto eram apenas ossos do ofício, grandes bombas assassinas que, aos meus olhos, se apresentavam diminutas e inofensivas. Amava-te obstinadamente. Digo-o no passado não porque já não te sinta, mas sim porque algo em mim se fechou. Hoje acordo com a certeza de que não me vais ligar, que as mensagens que me deixavas na caixa de entrada frequente e diariamente não vêm com o teu nome, que tenho a força e a coragem suficiente para não te procurar nas ruas que sei que pisas. Simplesmente porque já não existes num mundo real, porque sei que és uma miragem e que os contornos da tua imagem se afiguram já disformes, desfocados. Já não me é possível falar de ti no presente, muito menos citar as frases que o meu coração elabora sobre ti. Não me é possível e também não quero que o seja. Como diz sabiamente a Margarida, no livro que ando a ler "finalmente não tive outro remédio senão aceitar que não me amavas, nem da mesma forma nem de qualquer outra."
Não te vou mentir. Ainda me assaltas a memória e os reflexos, ainda estremeço quando vejo os teus gestos estampados em corpos alheios, ainda sublinho os livros que leio na esperança de te compreender, de te eternizar. Esquecer-te é um treino árduo, mas uma meta possível, bem mais longe em tempos. Não sou de me ficar. Disso sabes tu bem. Faço o luto, choro muito, porém a tempestade passa e arregaço as mangas, levanto-me e luto exaustivamente pela minha felicidade. Chego sempre lá. Foi por isso que te quis tão peremptoriamente. Porque tu, apesar de o mundo não compreender, eras a minha felicidade. Tu foste o único capaz de me fazer amar inquestionavelmente, o único capaz de domar, ainda que por pouco tempo, o meu temperamento forte e decidido. Porque eu, sem qualquer réstia de dúvida, sabia que eras tu. E eras. Tu é que não quiseste ser.
Bater com a porta na cara daqueles que mais amamos é difícil. Bater com a porta na tua foi um pouco mais fácil. Talvez por ter levado com ela milhares de vezes sem tu nunca te importares com os estragos que em mim nasciam. Há momentos em que temos de defender a nossa dignidade. Foi o que eu fiz. Posso ter-te perdido, mas a ela meti-a na mala. Não desisti de ti como possas pensar. Eu não posso desistir de uma coisa que nunca se quis dar. Não estamos em pé de igualdade, não posso competir com esse coração de pedra que nunca me deixará perfurar um milímetro de seja. Eu vivo de actos, de factos, de provas, não de passividade, de ocasião, de rodas da sorte . O amor, ele próprio, é uma prova de amor, sabias? E o meu foi a maior de todas.
Guardei-te na prateleira de cima. Gosto de arrumar a minha vida por capítulos, de libertar os fantasmas. É a única forma de te sentir calmamente. Não sei quando te vou, definitivamente, esquecer. Sou bem capaz de apostar que isso não vai acontecer. Marcas uma época, uma página, uma viragem. Não me parece que queira esquecer isso. A única coisa que espero é ter-te uma outra espécie de amor, uma espécie bem diferente daquela que experimenta-mos.
Dessa talvez numa outra vida.
*«É quando já não esperamos nada das pessoas que elas morrem no nosso coração. Agora já não espero nada de ti. Sabes porquê? Porque não tens nada para me dar. Nem a mim, nem a ninguém (...) porque tu não possuis o dom da entrega.»