segunda-feira, 4 de Janeiro de 2010

Contrastes

«Conheci uma mulher extraordinária.

Ah, meu caro, faltam-me as palavras certas para a definir-tudo nela é luz!»


José Eduardo Agualusa, O vendedor de passados





Ele fotografa o seu sorriso. De mãos pequenas e macias vê-a deslizar os olhos pela secção de bonecas sentindo o seu entusiasmo crescer. Pára e lança-lhe um "olhar prisão", uma vez que as suas mãos, ansiosas pela pele dela, se encontram sempre educadas e responsáveis. Baixa os olhos enquanto reconhece o quanto a quer assim: diferente. No fundo, pensa compensa-la pelo respeito que, em tempos, não lhe concederam. No fundo, quer muito notar alegria sincera na sua voz, prova de tempestades ultrapassadas, de lágrimas secas. Sabe que se tornou áspero, rígido, protegido, sabe também que ela não o culpa por isso e que o considera já herói. Valeu-lhe o desgosto em directo a que, tantas vezes, teve de assistir. Nunca pensamos que a nossa própria vida possa acabar numa novela e, quando acaba, é doloroso atirarmos-nos pelo sofá contemplando as nossas próprias falas sem poder alterar o tom de voz ou o ritmo da história.
Ela sente-o perto de si. Mesmo longe sabe-o conhecedor da sua epiderme, podendo descreve-la na hora sem esforço ou transtorno. Foca-se em pormenores e isso fá-la rir alto perguntando-se pela razão desse interesse quase mágico. Gira sobre si mesma e atira-lhe um frase qualquer maldosa. Irónica, ri baixinho. Canta distraída notas soltas enquanto se perde entre romances de autores estrangeiros e poesias portuguesas. Olha para ele, depois para um livro velho e, alternadamente, enquanto na voz lhe dançam esperanças de um amor maior e inteiro, lê um trecho seleccionado com cuidado. Vê-a apaixonada por vestidos, ouvindo a barafunda contagiante que faz desfilando pelos provadores minúsculos, e pensa em como lhes assentam bem. Mas é sobretudo na simplicidade e nos sonhos que a ama, nas fragrâncias que o seu pescoço exala, que o seu cabelo solta, na presença inesperada na sua vida, nos apartes e nos silêncios, nas ausências e no pouco que ela tem para dar.
Porque, no final, é ela quem lhe faz falta.
Como nunca ninguém lhe soube fazer.

Post-it







«- What do we want to promise each other?


(...)


- That you'll love me...even when you hate me.


- No runing...ever. (...) What else?


- That we'll take care of each other even when we´re old and smelly and senile. And if i get alzheimer´s and forget you...


- ...I will remind you who i am every day.»




Porque só um amor assim vale a pena, porque só quando olharem para mim e me aceitarem com toda a bagagem que trago comigo, porque só quando alguém me quiser até escrita num post-it azul, eu saberei que posso voltar a confiar.


Até lá, deixa-me rir.

segunda-feira, 28 de Dezembro de 2009

M day


«Há lugares aonde nunca mais quero voltar, e esse é um deles: noites a fio sozinha em casa a fumar charros e a ver filmes, roída dos momentos que passámos juntos, a minha pele ainda da ressaca da tua, o teu silêncio a atravessar-me os dias como uma lança que nunca mais acabava, e eu desligada do mundo e de quase todas as suas alegrias porque me entregara a um amor irrealizável e absurdo que só servia para me alimentar a veia literária»



Margariga Rebelo Pinto, O Dia em que te esqueci*







Eu já fui feliz contigo. Ás vezes ainda o sou quando, enroscada à almofada e perdida entre lençóis traquinas, me entrego a memórias tuas. Sorrio e inspiro o cheiro que já esqueci da tua camisa cinza, essa que tantas vezes manchei de dedos e lábios, no tempo em que a tua ausência espelhava em mim tsunamis devastadores, depressões compulsivas, medo de acordar para uma terra não semeada pelas tuas mãos. Medo da tua indiferença, dos teus silêncios pois, pior do que o desamor, é a ausência da sua constatação. E tu nunca foste bom com factos.
Fui feliz apesar de todas as prisões e privações a que me condenaste. A minha única prisão era a tua perda. O resto eram apenas ossos do ofício, grandes bombas assassinas que, aos meus olhos, se apresentavam diminutas e inofensivas. Amava-te obstinadamente. Digo-o no passado não porque já não te sinta, mas sim porque algo em mim se fechou. Hoje acordo com a certeza de que não me vais ligar, que as mensagens que me deixavas na caixa de entrada frequente e diariamente não vêm com o teu nome, que tenho a força e a coragem suficiente para não te procurar nas ruas que sei que pisas. Simplesmente porque já não existes num mundo real, porque sei que és uma miragem e que os contornos da tua imagem se afiguram já disformes, desfocados. Já não me é possível falar de ti no presente, muito menos citar as frases que o meu coração elabora sobre ti. Não me é possível e também não quero que o seja. Como diz sabiamente a Margarida, no livro que ando a ler "finalmente não tive outro remédio senão aceitar que não me amavas, nem da mesma forma nem de qualquer outra."
Não te vou mentir. Ainda me assaltas a memória e os reflexos, ainda estremeço quando vejo os teus gestos estampados em corpos alheios, ainda sublinho os livros que leio na esperança de te compreender, de te eternizar. Esquecer-te é um treino árduo, mas uma meta possível, bem mais longe em tempos. Não sou de me ficar. Disso sabes tu bem. Faço o luto, choro muito, porém a tempestade passa e arregaço as mangas, levanto-me e luto exaustivamente pela minha felicidade. Chego sempre lá. Foi por isso que te quis tão peremptoriamente. Porque tu, apesar de o mundo não compreender, eras a minha felicidade. Tu foste o único capaz de me fazer amar inquestionavelmente, o único capaz de domar, ainda que por pouco tempo, o meu temperamento forte e decidido. Porque eu, sem qualquer réstia de dúvida, sabia que eras tu. E eras. Tu é que não quiseste ser.
Bater com a porta na cara daqueles que mais amamos é difícil. Bater com a porta na tua foi um pouco mais fácil. Talvez por ter levado com ela milhares de vezes sem tu nunca te importares com os estragos que em mim nasciam. Há momentos em que temos de defender a nossa dignidade. Foi o que eu fiz. Posso ter-te perdido, mas a ela meti-a na mala. Não desisti de ti como possas pensar. Eu não posso desistir de uma coisa que nunca se quis dar. Não estamos em pé de igualdade, não posso competir com esse coração de pedra que nunca me deixará perfurar um milímetro de seja. Eu vivo de actos, de factos, de provas, não de passividade, de ocasião, de rodas da sorte . O amor, ele próprio, é uma prova de amor, sabias? E o meu foi a maior de todas.
Guardei-te na prateleira de cima. Gosto de arrumar a minha vida por capítulos, de libertar os fantasmas. É a única forma de te sentir calmamente. Não sei quando te vou, definitivamente, esquecer. Sou bem capaz de apostar que isso não vai acontecer. Marcas uma época, uma página, uma viragem. Não me parece que queira esquecer isso. A única coisa que espero é ter-te uma outra espécie de amor, uma espécie bem diferente daquela que experimenta-mos.
Dessa talvez numa outra vida.




É quando já não esperamos nada das pessoas que elas morrem no nosso coração. Agora já não espero nada de ti. Sabes porquê? Porque não tens nada para me dar. Nem a mim, nem a ninguém (...) porque tu não possuis o dom da entrega.»

domingo, 20 de Dezembro de 2009

"Encontros perfeitos"

"Um dia vou sair para a rua e gritar que sou feliz."

Sandra Alexandre



HOJE É O DIA.









Porque a alegria fica-me bem, hoje digo adeus aos tempos difíceis e visto o brilhozinho de sempre.







(os pacotinhos de açúcar nunca me abandonam*)


segunda-feira, 14 de Dezembro de 2009

Step number one


Hoje lembrei-me de te esquecer.


Como tantas vezes tu te esqueceste de me lembrar.

segunda-feira, 7 de Dezembro de 2009

"Stepping Stone"



«We should have a word together
I think you and I
We never should have slept together
Never should have tried

We should have a word together
I know that I said
That we were meant to be together
I wish I never had

We should have a word together
It's time we break our fall
Because trying isn't always better
Than not trying at all»

Milow



Ela olha os tectos falsos que foram construindo ao longo do tempo, enquanto pisa os chãos vazios em que se amaram dia sim / dia não. Esfrega os braços na esperança de afastar o frio que faz ao vê-lo atirar a mala para perto da porta. Soluça. Ele nunca chegou a desfazê-la. Ouve-o ralhar com a palidez invulgar da sua face, com o sangue que lhe foge da pele como se não tivesse mais razão para dançar entre veias. Fecha os olhos e aperta as mãos uma na outra. Sente-o girar sobre si próprio, virando costas como se não lhe doesse nada, como se soubesse, pelo menos, o seu nome do meio. Repete o ritual cansado e sem propósito dos lábios carnudos e francos na boca dela, como se soubesse que o seu pior dia da semana não segue as regras da sociedade igual, como se conhecesse a sua colecção de pacotes de açúcar onde se lê recados a um amor ausente. Como se soubesse dela alguma coisa para além do tecido de que a sua língua é feita.
Ela olha os tectos falsos que foram construindo ao longo do tempo e só encontra telhas partidas e meia dúzia de remendos apressados. Chora todo o conhecimento que fora aprendendo sobre ele, aluna atenta e dedicada, sublinhando cada oração, cada hipérbole, cada verbo transitivo da sua oratória bem construída. Abandona o corpo dorido pela cama fofa onde se amaram dia sim/dia não e diz-lhe que o quer a tempo inteiro. Adivinha-lhe um certo trago de ironia na expressão, sábia das suas convicções. E ele, como se não lhe doesse nada, como se não lhe pesasse nada mais do que a camisa preta que leva na mala, vira-lhe costas. E ela, responsável pelas suas tralhas no corredor e pelos sonhos passados a ferro atirados para o fundo da gaveta, abre-lhe a porta. Trémula, olha-o uma vez mais nos olhos e fecha-a , já depois de o ver meter ao bolso um bilhete grátis para outro amor que não o seu.
Assim.
Como se não lhe doesse nada.

segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

Tolerância zero


«Vem rastejar, que te faz bem!

Implora porquês que eu não vou responder

Geme a chorar, que te faz bem,

Sangra o teu mundo só para eu ver»


Toranja, Nada






Calções de ganga, t-shirt azul e sapatilhas. O cabelo, agora um pouco mais curto e forte, dança-me no alto da cabeça irrequieta, movendo-se a cada riso profundo, a cada gesto mais exagerado das minhas mãos faladoras. Tiro a máquina fotográfica do bolso e, concentrada, disparo para ti. Quero que saibas que já te procurei atrás de objectivas, que já tentei captar a tua luz. Procurei-te em letras de canções tristes, em pautas repletas de notas agudas, de sonoridades desconhecidas. Inventei instrumentos que me trouxessem a tua música, que me levassem à tua harmonia. Discorri dissertações acerca do amor que te tive, diferente do amor que agora te tenho, bem mais ferido e assassinado. Escrevi muito, tanto que te tornaste um livro, um memorial, quem sabe se o único Nobel alguma vez saído das minhas mãos. Vi-te em fitas de cinema, olhos abandonados na esperança reconfortante que a ficção sempre nos trás. Encontrei-te em ausências de refeições, prova da minha alimentação pouco variada, onde o meu único alimento eras tu.
Hoje, de calções de ganga, t-shirt azul e sapatilhas, com o cabelo vivo e maroto no alto da cabeça cansada de se prostrar a normas e valores fascistas que tu me querias impingir, olho-te com dificuldade. Os disparos são agora balas certeiras, tiros fatais no centro do teu peito mentiroso. És sala às escuras, punhado de negativos caídos nas minhas duas mãos trémulas, prenúncio de tragédia, hino a melancolia e perda. Hoje, os vinis que giravam em resposta ao giros dados pelo meu coração não tocam mais. Estou nos "limites do silêncio". Hoje, as minhas letras perdem-se num espaço que não controlo, num universo que não me pertence. Todas te traziam pela mão e tu nunca as leste. Hoje, maldigo a sua causa, maldigo-me a mim por ter aligeirado as feridas que me fizeste, os sinais vitais que me tiraste. A minha dor não tem nada de ligeiro, não se despacha nos bancos de clínica geral. Hoje, abandono a sala de cinema empanturrada em pipocas e coca-cola, sem deixar espaço para esperanças tuas. Substitui-te na minha roda alimentar, cidadã atenta aos benefícios de uma vida saudável.
Eu já não era saudável contigo. Era só um corpo em concha do qual tu mal sabias o nome.